Evangelho de Domingo: Deus é o autor do matrimônio

Neste domingo, o Evangelho apresenta-nos as palavras de Jesus sobre o matrimônio. A quem lhe perguntava se era lícito ao marido repudiar a própria esposa, como previa um preceito da lei moisaica (cf. Dt 24, 1), Ele respondeu que se tratava de uma concessão feita por Moisés devido à “dureza do coração”, enquanto a verdade sobre o matrimônio remontava “ao início da criação”, quando “Deus, como está escrito no Livro do Gênesis, os criou homem e mulher. Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe para se unir à sua mulher, e serão os dois uma só carne (Mc 10, 6-7; cf. Gn 1, 27; 2, 24). E Jesus acrescentou: “Portanto, já não são dois, mas uma só carne. Pois bem, o que Deus uniu não o separe o homem” (Mc 10, 8-9).

Matrimônio: Um projeto de Deus.

É este o projeto originário de Deus, como recordou também o Concílio Vaticano II na Constituição Gaudium et spes: “A íntima comunidade conjugal de vida e amor foi fundada e dotada de leis próprias pelo Criador; baseia-se na aliança dos cônjuges… o próprio Deus é o autor do matrimônio” (n. 48).

O meu pensamento dirige-se a todos os casais cristãos: agradeço com eles ao Senhor pelo dom do Sacramento do Matrimônio, e exorto-os a manter-se fiéis à sua vocação em cada época da vida, “na alegria e no sofrimento, na saúde e na doença”, como prometeram no rito sacramental. Conscientes da graça recebida, possam os cônjuges cristãos construir uma família aberta à vida e capaz de enfrentar unida os numerosos e complexos desafios deste nosso tempo. Hoje, há particularmente necessidade do seu testemunho. Há necessidade de famílias que não se deixem arrastar pelas modernas correntes culturais inspiradas no hedonismo e no relativismo, e estejam prontas a realizar com generosa dedicação a sua missão na Igreja e na sociedade.

“Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher, e eles serão uma só carne” (Gn 2,24, Mc 10,7-8). O que significa hoje para nós essa palavra?

Parece-me que nos convida a nos tornarmos mais conscientes de uma realidade já conhecida, mas talvez não totalmente apreciada, ou seja, que o matrimônio se constitui, em si mesmo, um Evangelho, uma Boa Nova para o mundo de hoje, em particular para o mundo descristianizado. A união do homem e da mulher, o ser “uma só carne” na caridade, no amor fecundo e indissolúvel, é um sinal que fala de Deus com força, com uma eloquência que hoje se torna ainda maior porque, infelizmente, por diversas razões, o matrimônio, justamente nas regiões de antiga tradição cristã, está passando por uma profunda crise.

A crise do matrimônio é uma crise de fé.

Há uma clara correspondência entre a crise da fé e a crise do matrimônio. Não é uma coincidência. O matrimônio está ligado à fé, não num sentido genérico. O matrimônio se fundamenta, enquanto união do amor fiel e indissolúvel, na graça que vem do Deus Uno e Trino, que em Cristo nos amou com um amor fiel até a Cruz. Hoje, somos capazes de compreender toda a verdade desta afirmação, em contraste com a dolorosa realidade de muitos matrimônios que, infelizmente, acabam mal. E, como a Igreja afirma e testemunha há muito tempo, o matrimônio é chamado a ser não apenas objeto, mas o sujeito da nova evangelização.

Matrimônio é missão.

Na Exortação apostólica Familiaris Consortio, o São João Paulo II escreveu que “o Sacramento do Matrimônio constitui os cônjuges e os pais cristãos testemunhas de Cristo ‘até aos confins do mundo’, verdadeiros e próprios ‘missionários’ do amor e da vida” (cf. n. 54). Esta missão é direta quer no interior da família, especialmente no serviço recíproco e na educação dos filhos, quer no exterior: de fato, a comunidade doméstica está chamada a ser sinal do amor de Deus para com todos.

Trata-se de uma missão que a família cristã só pode realizar se estiver amparada pela graça Divina. Por isto, é necessário rezar incessantemente e perseverar no esforço quotidiano para manter os compromissos assumidos no dia do Matrimônio. Sobre todas as famílias, especialmente sobre as que estão em dificuldade, invoco a proteção materna de Nossa Senhora e do seu esposo José. Maria, Rainha da família, rogai por nós!

Fonte: Parte da Homilia pronunciada pelo Papa Emérito Bento XVI por ocasião do Sínodo dos Bispos. Praça de São Pedro. Domingo, 7 de Outubro de 2012