O que seria a nossa vida de cristãos sem a Eucaristia?

Na página evangélica, São Lucas narra uma das aparições de Jesus ressuscitado (Lc 24,35-48). Precisamente no início do trecho, o evangelista escreve que os dois discípulos de Emaús, regressando à pressa a Jerusalém, contaram aos Onze como o tinham reconhecido “ao partir do pão” (Lc 24,35). E enquanto eles estavam a narrar a extraordinária experiência do seu encontro com o Senhor, Ele “esteve pessoalmente no meio deles” (Lc 24,36). Por causa desta sua improvisa aparição, os Apóstolos permaneceram amedrontados e assustados, a ponto que Jesus, para os tranquilizar e vencer qualquer hesitação e dúvida, disse-lhes que lhe tocassem não era um fantasma, – mas um homem de carne e osso – e em seguida pediu de comer. Mais uma vez, como tinha acontecido com os dois de Emaús, é enquanto está à mesa e come com os seus, que Cristo ressuscitado se manifesta aos discípulos, ajudando-os a compreender as Escrituras e a reler os acontecimentos da salvação à luz da Páscoa. “É preciso que se cumpram – diz ele – todas as coisas escritas sobre mim na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos” (Lc 24,44). E convida-os a olhar para o futuro: “em seu nome serão pregados a todos os povos a conversão e o perdão dos pecados” (Lc 24,47).

Cada comunidade revive esta mesma experiência na celebração eucarística, sobretudo na dominical. A Eucaristia, o lugar privilegiado no qual a Igreja reconhece “o autor da vida” (cf.Ac 3,15), é “a fração do pão”, como é chamada nos Atos dos Apóstolos. Nela, mediante a fé, entramos em comunhão com Cristo, que é “altar, vítima e sacerdote” (cf. Prefácio pascal, 5) e está no meio de nós. Reunimo-nos em volta d’Ele para fazer memória das suas palavras e dos acontecimentos contidos na Escritura; revivemos a sua paixão, morte e ressurreição. Celebrando a Eucaristia comunicamos com Cristo, vítima de expiação, e d’Ele obtemos perdão e vida. O que seria a nossa vida de cristãos sem a Eucaristia? A Eucaristia é a herança perpétua e viva que o Senhor nos deixou no Sacramento do seu Corpo e do seu Sangue, que devemos constantemente reconsiderar e aprofundar para que, como afirmava o venerado Papa Paulo VI, possa “imprimir a sua inexaurível eficácia sobre todos os dias da nossa vida mortal” (Insegnamenti, v [1967], p. 779). Alimentados pelo Pão eucarístico, os santos que hoje veneramos, cumpriram a sua missão de amor evangélico nos diversos campos, nos quais empregaram os seus peculiares carismas.

Fonte: Parte da homilia do Papa Emérito Bento XVI. Praça São Pedro, Domingo 26 de abril de 2009.