O Deus invisível, é Deus Conosco!

“Cristo foi gerado antes de toda a criatura” (Col 1,3. 12-20).

O louvor do Apóstolo (Col 3.12-14), e também nosso, eleva-se a “Deus, Pai do Senhor nosso Jesus Cristo”, fonte da salvação que é descrita negativamente como “libertação do poder das trevas”, ou seja, como “redenção e remissão dos pecados”. Depois, ela é reproposta positivamente como “participar na herança dos cristãos, na luz” e como entrada “no Reino do seu Filho amado”.

Nesta altura, abre-se o grande e denso Hino, que tem Cristo no centro, do qual é exaltado o primado e a obra, tanto na criação como na história da redenção. Portanto, são dois os movimentos do cântico.

No primeiro movimento do Hino:

Cristo é apresentado como o primogênito de toda a criação, Cristo, “anterior a qualquer criatura”. De fato, Ele é a “imagem do Deus invisível”, e esta expressão tem toda a força que o “ícone” encontra na cultura do Oriente: realça-se não tanto a semelhança, como a profunda intimidade com o sujeito representado.

Nele vemos o rosto de Deus

Cristo repropõe no meio de nós, de modo visível, o “Deus invisível”; n’Ele vemos o rosto de Deus através da natureza comum que os une. Em virtude desta sua altíssima dignidade, Cristo precede “todas as coisas”, não só por causa da sua eternidade, mas também e sobretudo pela sua obra criadora e providente: “porque n’Ele foram criadas todas as coisas, tanto as celestes como as terrestres, tanto as visíveis como as invisíveis… e tudo n’Ele subsiste”. Aliás, as coisas foram criadas “para Ele”.

Progresso é tudo o que nos aproxima de Cristo

São Paulo indica-nos uma verdade muita importante: a história tem uma meta, uma direção. A história orienta-se rumo à humanidade unida em Cristo, ao homem perfeito, ao humanismo perfeito. Por outras palavras, São Paulo diz-nos: sim, há progresso na história. Há por assim dizer uma evolução da história. Progresso é tudo o que nos aproxima de Cristo e assim nos aproxima da humanidade unida, do verdadeiro humanismo. Desta forma, no interior destas indicações esconde-se também um imperativo para nós: trabalhar pelo progresso é o que todos nós queremos. Podemos fazê-lo, trabalhando pela aproximação dos homens a Cristo; podemos fazê-lo, conformando-nos pessoalmente a Cristo, caminhando deste modo na linha do progresso autêntico.

O segundo movimento do Hino (cf. Cl 1,18-20) é representado pela figura de Cristo salvador no interior da história da salvação. A sua obra revela-se, antes de tudo, no ser “Cabeça do corpo, que é a Igreja”: este é o horizonte salvífico privilegiado em que se manifestam plenamente a libertação e a redenção, a comunhão vital que se interpõe entre a Cabeça e os membros do corpo, ou seja, entre Cristo e os cristãos. O olhar do Apóstolo orienta-se para a meta última em que a história converge: Cristo é “o primogênito dos que ressuscitam dentre os mortos”, é Aquele que abre as portas para a vida eterna, libertando-nos do limite da morte e do mal.

Viver como cristão significa deixar-se transformar interiormente por Cristo.

De fato, eis aquele pleroma, aquela “plenitude” de vida e de graça, que está no próprio Cristo e que nos é doada e comunicada. Com esta presença vital, que nos torna partícipes da divindade, transformamo-nos interiormente, reconciliados, apaziguados: é uma harmonia de todo o ser redimido, em que Deus será “tudo em todos”(1Cor15, 28); e viver como cristão significa deixar-se desse modo transformar interiormente segundo a forma de Cristo. Realiza-se a reconciliação, o apaziguamento.

Nascido no seio da Virgem, Ele vestiu-se de condenado!

A este grandioso mistério da redenção dedicamos agora um olhar contemplativo, e fazemo-lo com as palavras de São Proclo de Constantinopla, morto no ano de 446. Na sua Primeira Homilia sobre a Mãe de Deus, Maria, ele repropõe o mistério da Redenção como consequência da Encarnação.

De fato, recorda o Bispo, Deus fez-se homem para nos salvar e assim para nos libertar do poder das trevas e nos reconduzir ao reino do Filho amado, como lembra também este hino da Carta aos Colossenses. “Quem nos redimiu não é um mero homem observa Proclo, de fato, todo o gênero humano estava subjugado ao pecado; mas também não era um Deus desprovido da natureza humana: com efeito, Ele tinha um corpo. Se não tivesse sido revestido de mim, não me teria salvado. Nascido no seio da Virgem, Ele vestiu-se de condenado. Ali teve lugar o tremendo comércio: Ele deu o espírito e tomou a carne” (Testi mariani del primo millennio,I, Roma 1988, p. 561).

Portanto, estamos diante da obra de Deus, que realizou a Redenção precisamente porque também é homem. Contemporaneamente, Ele é Filho de Deus, Salvador, mas é inclusive nosso irmão, e é com esta proximidade que infunde em nós o dom divino. É realmente o Deus conosco. Amém!

Fonte: Parte do discurso do Papa Emérito Bento XVI por ocasião da Audiência Geral ocorrida na Praça São Pedro em Roma. Quarta-feira, 4 de Janeiro 2006