O Advento recorda que Deus vem!

O primeiro tempo do novo ano litúrgico é o Advento, formado, no Rito Romano, pelas quatro semanas que precedem o Natal do Senhor, ou seja, o mistério da Encarnação.

Qual o significado da palavra Advento?

A palavra “advento” significa “presença”. No mundo antigo indicava a visita do rei ou do imperador a uma província; na linguagem cristã refere-se à vinda de Deus, à sua presença no mundo; um mistério que envolve totalmente o cosmos e a história, mas que conhece dois momentos culminantes: a primeira e a segunda vinda gloriosa no fim dos tempos. Estes dois momentos, que cronologicamente são distantes — e não nos é dado saber quanto — tocam-se em profundidade, porque com a sua morte e ressurreição Jesus já realizou aquela transformação do homem e do cosmos que é a meta final da criação.

O Advento exorta os fiéis a tomarem consciência desta verdade e de agirem consequentemente. Ressoa como um apelo saudável, na repetição dos dias, das semanas e dos meses: Acorda! Recorda que Deus vem! Não ontem, não amanhã, mas hoje, agora! O único Deus verdadeiro, “o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob”, não é um Deus que está no céu, desinteressando-se por nós e pela nossa história, mas é o Deus-que-vem. É um Pai que nunca cessa de pensar em nós e, no respeito extremo pela nossa liberdade, deseja encontrar-nos e visitar-nos; quer vir, habitar no meio de nós, permanecer conosco. O seu “vir” é impelido pela vontade de nos libertar do mal e da morte, de tudo o que impede a nossa verdadeira felicidade. Deus vem para nos salvar.

Que significa: ‘Deus vem’?

Os Padres da Igreja observam que o “vir” de Deus contínuo e, por assim dizer, conatural ao seu próprio ser concentra-se nas duas vindas principais de Cristo: a da sua Encarnação e a do seu retorno glorioso no fim da história (cf. Cirilo de Jerusalém, Catequese 15, 1: PG 33, 870). O tempo do Advento é vivido inteiramente segundo esta polaridade.

Depois, aproximando-se o Natal, prevalecerá ao contrário a memória do acontecimento de Belém, para reconhecer nele a “plenitude do tempo”. Entre estas duas vindas “manifestas”, pode-se reconhecer uma terceira, que São Bernardo chama “intermédia” e “oculta”, que tem lugar na alma dos fiéis e lança como que uma “ponte” entre a primeira e a última. “Na primeira escreve São Bernardo Cristo foi a nossa redenção; na última, manifestar-se-á como a nossa vida: é nela que se encontram o nosso descanso e a nossa consolação” (Disc. 5, sobre o Advento, 1). Para esta vinda de Cristo, que poderíamos chamar “encarnação espiritual”, o arquétipo é sempre Maria. Como a Virgem Maria conservou no seu coração o Verbo que se fez carne, assim cada alma e toda a Igreja são chamadas, na sua peregrinação terrena, a esperar Cristo que vem e a acolhê-lo com fé e amor sempre renovados.

Fonte: Parte do discurso do Papa Emérito Bento XVI por ocasião da Oração do Angelus. I Domingo do Advento. Domingo, 02 de dezembro de 2012.