Formados na Cruz de Cristo

“O não do irmão nos remete para a cruz”

A vida comunitária é um dom do Espírito Santo. Um autêntico carisma tem a força para atrair graças particulares de conversão, cura e libertação para seus membros. Através dos irmãos, dos acontecimentos e das autoridades cada vocacionado invariavelmente irá, pela força da graça, percorrer seu caminho pessoal de maturação e conversão para tornar-se adulto na fé e na vocação.

Hoje vamos falar de um momento de intenso crescimento espiritual da consagração de vida; trata-se do momento da cruz.  Aquela hora única em que somos remetidos aos pés da cruz.

Através de situações simples e inesperadas a comunidade vai nos pedindo: desapego, abandono, humildade, tudo suavemente aceito e compreendido, afinal, ‘dei minha vida’; mas de repente nos deparamos com ‘outro’ dentro de nós: revoltado, raivoso, rebelde diante de coisas simples. Por exemplo, a formação nos pede: desligue seu celular, afaste-se um pouco de suas relações familiares, pare de atender tal pessoa, etc. A reação é estranha, parece impossível…”porque me proíbem algo que me faz bem?” “Não consigo entender?” É nessa hora que somos remetidos a cruz.

“Eis o homem!” (Jo 19,5)

Quando somos remetido a cruz, aparecem em nós feridas até então escondidas e desconhecidas; são abandonos, rejeições, solidão… nenhum homem pode curar estas feridas, nem o formador, nem o fundador, nem o médico, somente Jesus, que conhece as causas primeiras, as origens de dores tão profundas pode tocar, curar e consolar. São poucos os consagrados que resistem a este tipo de sofrimento, somente os fortes e os humildes.

Os que resistem descobrem um grande tesouro (Mt 13,44), Jesus como verdadeira alegria, verdadeira razão para viver e dar a vida, aquele que resiste certamente sai fortalecido em sua vocação. É preciso ser remetido a Deus para conhece-Lo como único.

“Pai, perdoa-lhes; porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34)

O perdão é essencial na comunidade, as mágoas guardadas vem a tona nos momentos mais impróprios, por isso, não se pode guardar nada, perdoar sempre e de preferência no ato, é preciso aprender a perdoar e pedir perdão para uma saudável vida comunitária. Também é importante reconhecer que a Comunidade não me deve nada e a ninguém: nem amor, nem carinho, nem caridade, nem respeito humano, nada… Um consagrado verdadeiramente consciente compreendeu que deu a vida, se deu a vida, seu negócio é com Deus, a Comunidade não lhe deve pagamento algum. Isso é forte, mas é verdadeiro e libertador, enquanto o consagrado espera reconhecimento, elogios e pagamento pelo bem que faz não é livre e não amadurece em sua entrega.

Jesus na cruz já pagou todas as dívidas que a Comunidade possa adquirir ao nos acolher como membro.

“Eis ai teu filho” (Jo19,26)

Aos pés da cruz, ao lado de Maria encontro meu ventre original, compreendo que fui desejado por Deus, chamado por ele e somente Ele pode me dispensar, é comum em tempos de cruz sentir-se como um “abortivo” (1 Cor 15,8), repelido por todos, como um infectado com vírus mortal, é comum o vitimalismo, a auto-comiseração e demais tormentos, mas é ali também o lugar do encontro do único amor, que jamais rejeita, que consola e que gera novamente este ‘abortivo’, para a vida da graça.

“Hoje estarás comigo no paraíso” (Jo 23,43)

O processo encerra sempre com a Palavra de salvação, Deus dá a última palavra e esta palavra é curadora, libertadora e salvadora. Quando a pessoa é curada por Deus lhe parece que foi tudo ilusão, que não é possível ser verdade tanto sofrimento e escuridão por algo tão ridículo como um acesso ao celular ou a internet, realmente não era este o problema, o problema era interior, invisível e inacessível para os olhos e mãos humanas. Só Deus pode nos tirar dos infernos interiores e nos remeter ao paraíso.