Eu sou a porta das ovelhas

Para entender essa afirmação, “Eu sou a porta das ovelhas” é preciso compreender que, no tempo de Cristo, os pastores de ovelhas viviam como nômades e só juntavam o seu rebanho no período do inverno. Nos redis mais simples, com portas pouco confiáveis, os pastores deitavam-se em frente à porta do aprisco, servindo eles próprios de porta para guardar as ovelhas. Por isso Jesus fala que é “a porta das ovelhas”.

Cristo disse que o pastor entra pela porta e que ele é a porta. Aqui diz ser ele o pastor; é preciso então que ele entre por si mesmo. Entra, na verdade, por si mesmo porque se manifesta a si e por si mesmo conhece o Pai. Nós, porém, entramos por ele, porque por ele somos cumulados de beatitude.

Contudo, atenta em que nenhum outro, exceto ele, é porta, porque nenhum outro é luz verdadeira, mas apenas por participação: “Não era a luz, isto é, João Batista, mas veio para dar testemunho da luz” (Jo 1,8). De Cristo, porém, diz: “Era a luz verdadeira que ilumina a todo homem” (Jo 1,9). Por este motivo ninguém diz ser porta; é propriedade exclusiva de Cristo. Quanto a ser pastor, comunicou-o a outros e deu a seus membros; Pedro é pastor, os outros apóstolos foram pastores e todos os bons bispos também. Dar-vos-ei, diz a Escritura, “pastores segundo meu coração”(Jr 3,15). Os prelados da Igreja, que são filhos,são todos pastores; no entanto diz no singular:”eu sou o bom Pastor”, para seguir a virtude da caridade. Ninguém é bom pastor, se não se tornar pela caridade um só com Cristo e membro do verdadeiro pastor. (Homilia de São Tomás de Aquino sobre o Bom Pastor).

A Igreja é o redil, cuja única e necessária porta é Cristo. (CIC 754). Cristo diz: “Em verdade, em verdade vos digo, quem não entra no redil das ovelhas pela porta, mas sobe por outro lugar, é ladrão e assaltante”. (Jo 10,2).

Jesus põe em evidência de maneira muita clara esta condição fundamental, afirmando: “Quem… sobe por outro lado, é um ladrão e salteador” (Jo 10, 1). Esta palavra,”sobe” anabainei, em grego evoca a imagem de alguém que escala um recinto para ir, ultrapassando, aonde legitimamente não poderia chegar. “Subir” aqui pode-se ver também a imagem do carreirismo, da tentativa de chegar “ao alto”, de procurar uma posição por meio da Igreja: servir-se, não servir.

É a imagem do homem que, através do sacerdócio, quer tornar-se importante, ser uma personagem; a imagem daquele que tem em vista a sua própria exaltação e não o humilde serviço a Jesus Cristo. No entanto, a única subida legítima rumo ao ministério do pastor é a cruz. Esta é a autêntica ascese, esta é a verdadeira porta. Não desejar tornar-se pessoalmente alguém mas, ao contrário, servir o outro, servir Cristo e, assim, através dele e com Ele, colocar-se à disposição dos homens que Ele procura, que Ele quer conduzir pelo caminho da vida. Entra-se no sacerdócio através do Sacramento e isto significa precisamente: mediante a entrega de si mesmo a Cristo, a fim de que Ele disponha de mim; a fim de que eu O sirva e siga o seu chamamento, mesmo que este venha a entrar em oposição com os meus desejos de auto-realização e estima. (Homilia no Domingo do Bom Pastor, 07 de maio de 2006, Papa Bento XVI).

Entrar pela porta, que é Cristo, quer dizer conhecê-lo e amá-lo cada vez mais, para que a nossa vontade se una à sua e o nosso agir se torne um só com o seu.

“Quem entrar por mim, será salvo; entrará e sairá e encontrará pastagem”(Jo 10,10).

O Senhor faz aqui um apelo urgente à conversão: “Entrai pela porta estreita, pois larga é a porta e espaçoso o caminho que levam à perdição e muitos são os que seguem por eles. Estreita é a porta e apertado o caminho que levam à vida e como são poucos aqueles que os encontram!” (Mt 7, 13-14) (CIC 1036). O verdadeiro pastor não é indiferente, ele cuida verdadeiramente de suas ovelhas.