Demitindo o personagem

No coração da comunidade está a confiança mútua nascida do perdão cotidiano e da aceitação das nossas fraquezas e pobrezas. Mas esta confiança não nasce num dia. É por causa disso que é preciso tempo para formar uma verdadeira comunidade.

Os personagens

Quando alguém entra na comunidade se põe a representar certo personagem, porque se quer ser conforme os outros esperam dele. Mas pouco a pouco se descobre que os outros o amam tal qual ele é e têm confiança nele. A confiança será sempre provada e deve crescer sempre.

O caminho da confiança

Os recém casados amam-se muito talvez, mas este amor tem, por vezes, um elemento superficial ligado a descoberta que acaba de ser feita. O amor é mais profundo entre velhos esposos que passaram por duras provas e que sabem que seu amor existirá até a morte. Sabem que nada poderá quebrar a sua união.

Acontece o mesmo nas comunidades, muitas vezes depois de sofrimentos, de grandes dificuldades e tensões que puseram a fidelidade à prova, que a confiança cresce. Uma comunidade onde há uma verdadeira confiança mútua é inabalável.

“A multidão dos fiéis tinham um só coração e uma só alma. Ninguém considerava seu o que possuía, mas tudo era comum entre eles”(At 4, 32).

A comunidade não é simplesmente um grupo de pessoas que vivem juntas e que se amam; mas é um coração, uma alma, um espírito. São pessoas que se amam muito, que estão voltadas para a mesma esperança. É esta atmosfera particular de alegria e de acolhimento que caracteriza a verdadeira comunidade.

“Pelo conforto que há em Cristo, pela consolação que há no amor, pela comunhão do Espírito, por toda a ternura e compaixão, levai à plenitude a minha alegria, ponho-vos acordes no mesmo sentimento, no mesmo amor, numa só alma, num só pensamento.”(Fl 2, 1-2).

Descobrir-se amado

Esta alegria vem do fato de cada um sentir-se livre para ser verdadeiramente quem se é, no que tem de mais profundo. Não é preciso representar uma personagem, pretender ser melhor do que os outros, tentar proezas para ser amado. Descobrir que é amado pelo que é e não por suas capacidades intelectuais ou manuais.
Quando começa-se a retirar as barreiras e os medos que impedem de ver como se é na verdade, simplifica-se. A simplicidade é precisamente ser o que somos, sabendo que os outros nos amam como somos. É saber-se aceito com seus defeitos, suas qualidades, na sua personalidade profunda.

O medo de mim mesmo

A grande dificuldade, para muitos que vivem em comunidade, é a falta de confiança em si mesmo. Temos a impressão de não termos nada digno de amor em nós, e que se os outros nos vissem tal qual somos, nos rejeitariam. Temos medo de tudo o que é trevas em nós, de nossas dificuldades no plano da vida afetiva ou da sexualidade. Temos medo de não podermos amar verdadeiramente. Passamos tão depressa da exaltação à depressão, mas nenhum desses dois estados é expressão do que somos verdadeiramente. Como nos convencemos de que somos amados na nossa pobreza e nas nossas fraquezas e que somos capazes, nós também de amar?

Descobrir o segredo

Aqui está o segredo do crescimento em comunidade. Não virá de um dom de Deus, que passa talvez através dos outros? Quando se descobre, pouco a pouco, que Deus e os outros têm confiança em nós, é mais fácil confiar em si mesmo e a confiança nos outros pode crescer.

Viver em comunidade é descobrir e amar o segredo de nossa pessoa, naquilo que temos de único. É assim que nos tornamos livres. Então não vivemos mais conforme os desejos dos outros, ou conforme uma personagem, mas sim a partir do apelo profundo de nossa pessoa, nos tornamos livres para descobrir a pessoa profunda do outro.

Texto extraído de VANIER, Jean. Comunidade Lugar do perdão e da festa . São Paulo, SP: Edições Paulinas, 1980 – CAPÍTULO I, pg.29.

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