Da Páscoa a Ascensão aos Céus

O mistério da Páscoa de Cristo abrange a história da humanidade, mas ao mesmo tempo transcende-a. O próprio pensamento e a linguagem humana podem de algum modo compreender este mistério e comunicá-lo, mas não esgotá-lo. Por este motivo o Novo Testamento, embora fale de “ressurreição” como afirma o antigo Credo que o próprio Paulo recebeu e transmitiu na Primeira Carta aos Coríntios, recorre também a outra formulação para delinear o significado da Páscoa.

“Porque primeiramente vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras, e que foi sepultado, e que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras. E que foi visto por Cefas, e depois pelos doze”. (1 Cor 15,3-5).

A Cruz de Cristo já é o trono real

Sobretudo em João e Paulo ela é apresentada como exaltação ou glorificação do Crucificado. Assim, para o quarto evangelista a cruz de Cristo já é o trono real, que se apoia na terra mas penetra nos céus. Cristo encontra-se ali sentado, como Salvador e Senhor da história.

Jesus exclama:  “E quando for levantado da terra, atrairei todos a Mim” (12, 32; cf. 3, 14; 8, 28). No hino inserido na Carta aos Filipenses, depois de ter descrito a profunda humilhação do Filho de Deus na morte de cruz, Paulo celebra assim a Páscoa: “Por isso é que Deus O exaltou e Lhe deu um nome que está acima de todo o nome, para que ao nome de Jesus, todo o joelho se dobre nos Céus, na Terra e nos Infernos, e toda a língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor para glória de Deus Pai” (Fl 2, 9-11).

A Ascensão de Cristo ao céu, narrada por Lucas ao concluir o seu Evangelho e como início da sua segunda obra, os Atos dos Apóstolos, deve ser compreendida nesta mesma luz. Trata-se da última aparição de Jesus, que “termina com a entrada irreversível da sua humanidade na glória divina, simbolizada pela nuvem e pelo céu” (Catecismo da Igreja Católica, n. 659). O céu é por excelência o sinal da transcendência divina. É a zona cósmica que está acima do horizonte terrestre, dentro do qual se desenvolve a existência humana.

Ele fez-nos sentar no céu

Depois de ter percorrido as sendas da história e entrado também na obscuridade da morte, fronteira da nossa finitude e salário do pecado (cf. Rm 6, 23), Cristo retorna à glória, que desde a eternidade (cf. Jo 17, 5) é por Ele compartilhada com o Pai e o Espírito Santo. E consigo conduz a humanidade remida. A carta aos Efésios, de fato, afirma que “Deus, que é rico em misericórdia, pelo grande amor com que nos amou… deu-nos a vida juntamente com Cristo… Na pessoa de Jesus Cristo, Deus ressuscitou-nos e fez-nos sentar no céu” (2, 4-6). Isto vale antes de tudo para a Mãe de Jesus, Maria, cuja assunção é primícias da nossa ascensão na glória.

Trinitas in cruce

Diante do Cristo glorioso da Ascensão, detemo-nos para contemplar a presença de toda a Trindade. Sabe-se que a arte cristã, na chamada ‘Trinitas in cruce’, representou por mais de uma vez Cristo crucificado, sobre o Qual o Pai se debruça como num abraço, enquanto entre os dois paira a pomba do Espírito Santo (assim, por exemplo, Masaccio na Igreja de Santa Maria “Novella”, em Florença). Desse modo, a cruz é um símbolo unitivo que amalgama a humanidade e a divindade, a morte e a vida, o sofrimento e a glória.

De maneira análoga, pode-se entrever a presença das três Pessoas divinas na cena da Ascensão. Na página final do Evangelho, antes de apresentar o Ressuscitado que, como sacerdote da Nova Aliança, abençoa os seus discípulos e se separa da terra para ser conduzido à glória do céu (cf. Lc 24, 50-52), Lucas evoca novamente o discurso de despedida  dirigido  aos  apóstolos.  Nele  aparece  antes  de  tudo  o  desígnio  de  salvação  do  Pai,  que  nas  Escrituras  anunciara  a  morte  e  a  ressurreição  do  Filho,  fonte  de  perdão  e  de  libertação (cf. Lc 24, 45-47).

Mas naquelas mesmas palavras do Ressuscitado delineia-se também o Espírito Santo, cuja presença será fonte de força e de testemunho apostólico:  “Agora vou enviar-vos Aquele que Meu Pai prometeu. Por isso, esperai na cidade, até  que  sejais  revestidos  da  força  do alto” (Lc 24, 49). Se no Evangelho de João o Paráclito é prometido por Cristo, para  Lucas  o  dom  do  Espírito  faz também  parte  duma  promessa  do próprio Pai.

A inteira Trindade, portanto, está presente no momento em que se abre o tempo da Igreja. É o que São Lucas afirma também na segunda narração da Ascensão de Cristo, a dos Atos dos Apóstolos. Com efeito, Jesus exorta os discípulos a “esperarem que se cumpra a promessa do Pai”, isto é, de serem “batizados no Espírito Santo“, no Pentecostes já iminente (At 1, 4-5).

Ascenção: Epifania Trinitária

A Ascensão é, pois, uma epifania trinitária que indica a meta para a qual se orienta a flecha da história pessoal e universal. Ainda que o nosso corpo mortal passe através da dissolução no pó da terra, todo o nosso eu remido está propenso para o alto e para Deus, seguindo Cristo como guia. Sustentados por esta certeza jubilosa, dirijamo-nos ao mistério de Deus Pai, Filho e Espírito, que se revela na Cruz gloriosa do Ressuscitado, com a invocação adorante da Beata Isabel da Trindade: 

“Ó meu Deus, Trindade que adoro, ajudai-me a esquecer-me inteiramente para me estabelecer em Vós, imóvel e tranquila,  como  se  a  minha  alma  já estivesse  na  eternidade… Pacificai  a minha  alma!  Fazei  de  mim  o  vosso céu, a vossa morada predileta e o lugar do vosso  repouso… Ó  meus  Três, meu tudo, minha Bem-aventurança, Solidão infinita, Imensidade na qual me perco, eu abandono-me em Vós… à espera de poder contemplar na vossa luz o abismo da vossa grandeza” (Elevação à Santíssima Trindade, 21 de Novembro de 1904).

Fonte: Parte do discurso do Papa São João Paulo II na Audiência Geral da quarta-feira, 24 de Maio de 2000.