Conselho da pobreza

Pobreza, nos Conselhos Evangélicos, não significa ser miserável e nada ter, a pobreza evangélica significa renunciar a posse e ao espírito de dominação. É muito comum tomar posse de algo, pois, somos educados assim, na cultura atual possuir coisas é absolutamente normal, mas, quando se trata de um consagrado a posse torna-se uma falta grave contra a virtude da pobreza.

Posse das coisas

Quando a Comunidade coloca seus bens nas mãos dos membros é para que através de alguém este bem seja cuidado, respeitado e esteja a serviço de todos; assim acontece com os carros, aparelhos eletrônicos, utensílios, etc. Cuidar, zelar, manter é necessário, mas ao mesmo tempo é preciso ter cuidado para não se apossar; exigir que tudo que foi usado seja devolvido em bom estado e no lugar certo é bom, mas exigir com aspereza e dominação é posse; cuidar para que não se estrague ou desperdice é bom, ruim é esconder para que ninguém use. Sabemos que as coisas se desgastam, necessitam de manutenção, etc., cuidar é manter tudo em bom estado e à disposição de todos com alegria e desprendimento.

Posse dos serviços

Para que a Comunidade possa caminhar organizadamente é preciso determinar pessoas que coordenem os setores que existem, por exemplo: Quem vai cuidar da cozinha? Das limpezas? Das missões? etc. São serviços que necessitam que alguém se dedique e organize, os demais vão colaborar para o bom andamento do setor. Pois bem, quando é que percebemos que este apostolado virou posse? Quando aquele coordenador não quer aceitar remoção, mudanças, sugestões, nem mesmo as ordens de seus superiores. Apossar-se de um serviço é torná-lo propriedade particular, porém, é só um serviço.

Posse das pessoas

As pessoas, os irmãos ou fundadores, aqueles que evangelizamos, pertencem a Deus, mas, quantas vezes tendemos a nos apossar deles. O formador pode se apossar de seu formando, o evangelizador daquele que é evangelizado, a mãe dos filhos, o esposo da esposa, etc.
Será que tomei posse? Veja alguns exemplos:
– Sentimos ciúmes do irmão, da pessoa, queremos que ela seja nossa, só eu posso atendê-la, quero sempre sua atenção, quero saber tudo que acontece com ela. Isso é posse.
– Nos entristecemos se não possuímos a prioridade nas conversas, nas novidades, nas partilhas.
– Nos tornamos escravos e dependentes nos relaciomamentos. É bom sempre ter bem claro: as pessoas são de Deus.

Posse do sagrado

Como se pode ter posse do sagrado? Isso não seria bom? De forma alguma pois é fantasia e ilusão. É o Sagrado, este sim, que deve apossar-se de nós, como no diz São Paulo Apóstolo: “Mas vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus.” (1 Cor, 3,3). Uma conduta iluminista muitas vezes pode apresentar comportamentos fantasiosos e pretensão de dons extraordinários, devemos desconfiar de irmãos sem maturidade humana e emocional que ‘recebem’ revelações extraordinárias, já se dizia: primeiro o homem depois o santo, este tipo de falta de pobreza é perigosa para o amadurecimento da vocação, é preciso compreender que a intimidade com Deus e a unção divina em um carisma acontece através de um lento processo de conversão. Não basta uma postura de santidade, é preciso ser santo.

Como vencer este tipo de tentação em minha vocação?

Primeiro, compreendendo que dei minha vida, nada tenho, nada sou… Quem deve tomar posse de mim é Deus, sou Dele. Segundo, vencendo o espírito de dominação. A dominação, ou seja, a astúcia de manter o outro sob controle, abaixo de mim, dominado, sob minhas ordens… é a mais terrível inimiga da vocação e da vida fraterna. Da dominação nasce a posse que fere a pobreza. Quando o espírito de dominação não é tratado, é mascarado ou passa despercebido pelas autoridades do carisma, o consagrado acaba lentamente decaindo também na obediência e na castidade, pois a voz que predomina é aquela mesma que dizia: Não te servirei!