A resposta do homem ao Amor de Jesus

“Felizes os que observam os preceitos, os que em todo o tempo fazem o bem!” (Sl 105[106], 3).

A meditação do amor de Deus, que se revelou no Coração do seu Filho, exige do homem uma resposta coerente. Não fomos chamados apenas a contemplar o mistério do amor de Cristo, mas a participar nele. Cristo diz: “Se Me amardes, guardareis os mandamentos” (Jo 14, 15). Desta forma, Ele faz-nos uma grande chamada e ao mesmo tempo põe-nos uma condição: se Me queres amar, guarda os Meus mandamentos, observa a santa lei de Deus, segue as veredas que Deus te indicou e que Eu te indiquei com o exemplo da minha vida.
É vontade de Deus que observemos os mandamentos, isto é, a lei de Deus dada no Monte Sinai a Israel, por meio de Moisés. Dada a todos os homens. Conhecemos estes mandamentos. Muitos de vós repetem-nos todos os dias na oração. É um costume muito bonito e devoto. Repitamo-los como estão escritos no Livro do Êxodo, para confirmar e renovar o que recordamos.
“Eu sou o Senhor, teu Deus, que te fez sair do Egito, de uma casa de escravidão.
Não terás outro Deus além de Mim.
Não pronunciarás em vão o nome do Senhor, teu Deus. Recorda-te do dia de sábado, para o santificar.
Honra o teu pai e a tua mãe, para que os teus dias se prolonguem na terra que o Senhor, teu Deus, te dará.
Não matarás.
Não cometerás adultério.
 Não roubarás.
 Não dirás falso testemunho contra o teu próximo.
Não cobiçarás a casa do teu próximo.
Não cobiçarás a mulher do teu próximo” (cf. 20, 2-17).

Eis o fundamento da moral dada ao homem pelo Criador: o Decálogo, as dez palavras de Deus pronunciadas com firmeza no Monte Sinai e confirmadas por Cristo no sermão da montanha, no contexto das oito bem-aventuranças. O Criador, que é ao mesmo tempo o legislador, inscreveu no coração do homem toda a ordem da verdade. Esta ordem condiciona o bem e a ordem moral e constitui a base da dignidade do homem criado à imagem de Deus. Os mandamentos foram dados para o bem do homem, para o seu bem pessoal, familiar e social. Para o homem, eles são verdadeiramente a via. Apenas a ordem material não basta. Precisa ser completada e enriquecida pela sobrenatural. Graças a ela, a vida adquire um novo sentido e o homem torna-se melhor. Com efeito, a vida tem necessidade de forças e de valores divinos, sobrenaturais, e então adquire o pleno esplendor.

Cristo confirmou esta lei na Antiga Aliança. No sermão da montanha falava com clareza àqueles que o escutavam: “Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas: não vim revogá-la, mas completá-la” (Mt 5, 17). Cristo veio para completar a Lei, antes de mais para colmar o seu conteúdo e o seu significado, e para mostrar desta forma o pleno sentido e toda a sua profundidade: a lei é perfeita quando está repleta do amor de Deus e do próximo. É o amor que decide da perfeição moral do homem, da sua semelhança com Deus. “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, ― diz Cristo ― esse é que Me ama, e aquele que Me ama será amado por Meu Pai, e Eu amá-lo-ei e manifestar-Me-ei a ele” (Jo 14, 21). A hodierna função litúrgica dedicada ao Santíssimo Coração de Jesus recorda-nos este amor de Deus, intensamente desejado pelo homem, e indica que uma concreta resposta a este amor é a observância na vida quotidiana dos mandamentos de Deus. Deus quis que eles não se ofuscassem na memória, mas permanecessem impressos para sempre nas consciências dos homens, para que o homem conhecendo e guardando os mandamentos, “tenha a vida eterna”.

“Bem-aventurados os que praticam a Lei”.

De fato, guardar a lei divina é a base para obter o dom da vida eterna, ou seja, da felicidade que jamais tem fim. Ao jovem rico que perguntava: “Mestre, que hei-de fazer de bom para alcançar a vida eterna?” (Mt 19, 16), Jesus respondeu: “Se queres entrar na vida, guarda os mandamentos” (Mt 19, 17). Esta chamada por parte de Cristo é particularmente atual na realidade de hoje, na qual muitos vivem como se Deus não existisse. A tentação de organizar o mundo e a própria vida sem Deus ou contra Deus, sem os seus mandamentos e sem o Evangelho, existe e ameaça também a nós. A vida humana e o mundo construídos sem Deus, no fim voltar-se-ão contra o homem. Disto tivemos numerosas provas neste século XX que está a terminar. Transgredir os mandamentos divinos, abandonar o caminho traçado por Deus, significa cair na escravidão do pecado, e “o salário do pecado é a morte” (Rm 6, 23).

Encontramo-nos perante a realidade do pecado. Ele é ofensa a Deus, é uma desobediência a Deus, à sua lei, à norma moral, que Deus deu ao homem, inscrevendo-a no coração humano, confirmando-a e aperfeiçoando-a mediante a Revelação. O pecado contrapõe-se ao amor de Deus por nós e afasta d’Ele os nossos corações. O pecado é “o amor por si vivido até ao desprezo de Deus”, como diz S. Agostinho (De Civitate Dei, 14, 28). O pecado é um grande mal em toda a sua múltipla dimensão. Começando pelo original, através de todos os pecados pessoais de cada homem, dos pecados sociais, dos pecados que pesam na história da humanidade inteira.

Devemos estar sempre conscientes deste grande mal, devemos adquirir constantemente a subtil sensibilidade e o claro conhecimento do estímulo de morte contido no pecado. Ele tem a sua origem na consciência moral do homem, está relacionado com o conhecimento de Deus, com o sentido da união com o Criador, Senhor e Pai. Quanto mais profunda é esta consciência de união com Deus, reforçada pela vida sacramental do homem e pela oração sincera, mais claro é o sentido do pecado. A realidade de Deus revela e ilumina o mistério do homem. Fazemos de tudo para tornar sensíveis as nossas consciências, e preservá-las da deformação ou da insensibilidade.

Apresenta-se diante de nós Santo Adalberto. Sentimos aqui a sua presença, porque nesta terra ele deu a sua vida por Cristo. Há mil anos que ele nos diz, com o testemunho do martírio, que a santidade se alcança mediante o sacrifício, que aqui não há espaço para qualquer compromisso, que é preciso ser fiéis até ao fim, que é necessário ter a coragem de proteger a imagem de Deus na própria alma, até ao preço supremo. A sua morte de mártir chama os homens para que, morrendo para o mal e para o pecado, deixem nascer neles um homem novo, um homem de Deus, que guarda os mandamentos do Senhor.

Queridos Irmãos e Irmãs, contemplemos o Sagrado Coração de Jesus, que é fonte de vida, porque por seu intermédio se realizou a vitória sobre a morte. Ele é também fonte de santidade, porque nele é derrotado o pecado, que é inimigo da santidade, inimigo do progresso espiritual do homem. No Coração do Senhor Jesus, tem início à santidade de cada um de nós. Aprendamos deste coração o amor a Deus e a compreensão do mistério do pecado ― mysterium iniquitatis.

Façamos atos reparadores ao Divino Coração pelos pecados cometidos por nós e pelo nosso próximo. Reparemos pela recusa da bondade e do amor de Deus.
Aproximemo-nos todos os dias desta fonte de água viva. Invoquemos com a mulher samaritana: “dai-nos desta água”, porque ela dá a vida eterna.
Coração de Jesus, fornalha ardente de caridade,
Coração de Jesus, fonte de vida e de santidade,
Coração de Jesus, propiciação pelos nossos pecados – tende piedade de nós. Amém.

Fonte: Parte da Homilia do Papa São João Paulo II, por ocasião da Viagem Apostólica à Polônia. Domingo, 6 de Junho de 1999.