A Igreja faz apelo à Misericórdia Divina

A Igreja proclama a verdade da misericórdia de Deus, revelada em Cristo crucificado e ressuscitado, e proclama-a de várias maneiras. Procura também praticar a misericórdia para com os homens por meio dos homens, como condição indispensável da sua solicitude por um mundo melhor e “mais humano”, hoje e amanhã.

Oração e grande clamor

Mas, além disso, em nenhum momento e em nenhum período da história, especialmente numa época tão crítica como a nossa, pode esquecer a oração que é um grito de súplica à misericórdia de Deus, perante as múltiplas formas do mal que pesam sobre a humanidade e a ameaçam. Tal é o direito e o dever da Igreja, em Cristo Jesus: direito e dever para com Deus e para com os homens. Quanto mais a consciência humana, vítima da secularização, esquecer o próprio significado da palavra “misericórdia”, e quanto mais, afastando-se de Deus, se afastar do mistério da misericórdia, tanto mais a Igreja tem o direito e o dever de apelar “com grande clamor”(Cf. Hb 5,7) para o Deus da misericórdia. Este “grande clamor”, elevado até Deus para implorar a sua misericórdia há-de caracterizar a Igreja do nosso tempo. A mesma Igreja professa e proclama que a manifestação clara de tal misericórdia se verificou em Jesus crucificado e ressuscitado, isto é, no Mistério Pascal. É este Mistério que contém em si a mais completa revelação da misericórdia, isto é, daquele amor que é mais forte do que a morte, mais poderoso do que o pecado e que todo o mal, do amor que ergue o homem das suas quedas, mesmo mais profundas, e o liberta das maiores ameaças.

O homem contemporâneo sente estas ameaças. O que se disse acima a este propósito não é mais do que simples esboço. O homem contemporâneo interroga-se com profunda ansiedade quanto à solução das terríveis tensões que se acumulam sobre o mundo e se entrecruzam nos caminhos da humanidade. Se algumas vezes o homem não tem a coragem de pronunciar a palavra “misericórdia”, ou não lhe encontra equivalente na sua consciência despojada de todo o sentido religioso, ainda se torna mais necessário que a Igreja pronuncie esta palavra, não só em nome próprio, mas também em nome de todos os homens contemporâneos.

Como os Profetas, apelamos para o amor que tem características maternais e, à semelhança da mãe, vai acompanhando cada um dos seus filhos, cada ovelha desgarrada, ainda que houvesse milhões de extraviados, ainda que no mundo a iniquidade prevalecesse sobre a honestidade e ainda que a humanidade contemporânea merecesse pelos seus pecados um novo “dilúvio”, como outrora sucedeu com a geração de Noé. Recorramos, pois, a tal amor, que permanece amor paterno, como nos foi revelado por Cristo na sua missão messiânica, e que atingiu o ponto culminante na sua Cruz, morte e ressurreição! Recorramos a Deus por meio de Cristo, lembrados das palavras do Magnificat de Maria, que proclamam a misericórdia “de geração em geração”. Imploremos a misericórdia divina para a geração contemporânea! Que a Igreja, que procura, a exemplo de Maria ser em Deus, mãe dos homens, exprima nesta oração a sua solicitude maternal e o seu amor confiante, donde nasce a mais ardente necessidade da oração.

Suplica de todos os homens

Elevemos as nossas súplicas, guiados pela fé, pela esperança e pela caridade, que Cristo implantou nos nossos corações. Esta atitude é, ao mesmo tempo, amor para com Deus, que o homem contemporâneo por vezes afastou tanto de si, que O considera um estranho e de várias maneiras O proclama “supérfluo”. É, ainda, amor para com Deus, em relação ao Qual sentimos profundamente quanto o homem contemporâneo O ofende e O rejeita; e por isso estamos prontos para clamar com Cristo na cruz: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”(Lc 23,34). Tal atitude é também amor para com os homens, para com todos os homens, sem exceção e sem qualquer discriminação: sem diferenças de raça, de cultura, de língua, de concepção do mundo e sem distinção entre amigos e inimigos. Tal é o amor para com todos os homens, que deseja todo o bem verdadeiro a cada um deles, e a toda comunidade humana, a cada família, nação, grupo social, aos jovens, aos adultos, aos pais, anciãos e doentes, enfim, amor para com todos sem exceção. Tal é o amor, esta viva solicitude para garantir a cada um todo o bem autêntico e afastar e esconjurar todo o mal.

O homem está ameaçado

Se alguns contemporâneos não compartilharem comigo a fé e a esperança que me impelem, como servo de Cristo e ministro dos mistérios de Deus (Cf. 1 Cor 4,1), a implorar nesta hora da história a misericórdia do mesmo Deus para a humanidade, que esses procurem ao menos compreender o motivo desta solicitude. Ela é ditada pelo amor para com o homem, para com tudo o que é humano e que, segundo a intuição de grande parte dos nossos contemporâneos, está ameaçado por perigo imenso. O mistério de Cristo que, revelando-nos a alta vocação do homem, me levou a pôr em evidência na Encíclica Redemptor Hominis a incomparável dignidade do mesmo homem, obriga-me igualmente a proclamar a misericórdia, como amor misericordioso de Deus, manifestado no mistério de Cristo. Impele-me ainda a recorrer à misericórdia e a implorá-la, nesta fase difícil e crítica da história da Igreja e do mundo, ao aproximarmo-nos do final do segundo Milênio.
Em nome de Jesus Cristo crucificado e ressuscitado, e no espírito da sua missão messiânica que continua presente na história da humanidade, elevemos as nossas vozes e supliquemos que nesta fase da história, se manifeste uma vez mais o Amor que está no Pai e que, por obra do Filho e do Espírito Santo, tal Amor manifeste no nosso mundo contemporâneo a sua presença, mais forte do que o mal, e o pecado e a morte.

Pedimos isto por intercessão d’Aquela que não cessa de proclamar “a misericórdia, de geração em geração”; e também pela intercessão daqueles em que já se realizaram até ao fim as palavras do Sermão da Montanha, “Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia” (Mt 5,7).
Prosseguindo na grande tarefa de dar cumprimento ao Concílio Vaticano II, no qual podemos justamente descobrir nova fase da auto-realização da Igreja — na medida adaptada à época que nos coube viver — a própria Igreja deve ser constantemente guiada pela plena consciência de que não lhe é permitido, em hipótese alguma, esmorecer nesta tarefa e fechar-se sobre si mesma. A sua razão de ser, efetivamente, é revelar Deus, isto é, o Pai, que nos permite “vê-l’O”, em Cristo (Cf. Jo 14,9). Por mais forte que possa ser a resistência da história humana, por mais marcante que se apresente a heterogeneidade da civilização contemporânea e, enfim, por maior que possa ser a negação de Deus no mundo humano, ainda maior deve ser, apesar de tudo, a nossa aproximação de tal mistério que, oculto desde toda a eternidade em Deus, foi depois, no tempo, realmente comunicado ao homem por meio Jesus Cristo.

Fonte: CARTA ENCÍCLICA DIVES IN MISERICORDIA DO SUMO PONTÍFICE JOÃO PAULO II  SOBRE A MISERICÓRDIA DIVINA – CAPITULO: VIII. Dado em Roma, junto de São Pedro, aos trinta dias do mês de Novembro, Primeiro Domingo do Advento, do ano de 1980.

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