A coragem de caminhar nas trevas

“Estando ele em viagem e aproximando-se de Damasco, subitamente uma luz vinda do céu o envolveu. Caindo por terra, ouviu uma voz que lhe dizia:” Saulo, Saulo, por que me persegues?… Mas levanta-te, entra na cidade, e te dirão o que deves fazer “… Saulo ergueu-se do chão. Mas embora tivesse os olhos abertos, não via nada. Conduzindo-o, então, pela mão, fizeram-no entrar em Damasco. Esteve três dias sem ver, e nada comeu nem bebeu. Ora, vivia em Damasco um discípulo chamado Ananias…” (At 9,3-10).

A luz da verdade

É a luz ofuscante da verdade, que nos faz cair por terra e até mesmo tirar a vista. É, talvez, a fase mais delicada de um processo de conversão. Mas também a mais sofrida e, em certo sentido, a menos natural, porque, se antes bastava ser esperto, agora é preciso ser crente; se antes importava ser lógico e saber constatar a realidade, agora é preciso aprender a deixar-se conduzir pelo mistério e pelo que é impossível de conhecer.

Gostaríamos de “ver” Deus, de conhecer logo a sua verdade, apalpar com nossas mãos, de descobrir a evidência. Podemos até estar dispostos a descobrir nossos ídolos e a desestruturar a nossa vida. Porém, em troca, pretendemos ver claro, saber por qual caminho enveredamos, encontrar os motivos de certas exigências estranhas, ser informados sobre as intenções de Deus. São exigências legítimas, sem dúvida. Todavia, elas não têm valor para Deus. Manifestam, uma vez mais, nossa dificuldade a aceitar o Transcendente. “Não sou aquele que acreditais…”  – disse João aos fariseus. O mesmo parece dizer-nos Deus, diante de nossas contínuas tentativas de “limitá-lo” dentro de nossas certezas, as quais quase sempre não passam de ilusões ou da pretensão de “conquistá-lo”. Pelo contrário, Deus proclama feliz aquele que crê, sem ter visto (cf. Jo 20,29), como Maria que não entendia, como Paulo que não via nada, como todos os santos, os quais, sem exceção alguma, suportaram o silêncio e a ausência de Deus.

O verdadeiro problema, nesta fase, é que os valores e os critérios antigos já não existem, deram prova de serem pseudovalores, e critérios enganadores e tradutórios. De outro lado, os novos valores ainda não se manifestaram totalmente ao coração do cristão. Ele os percebe e os entrevê, mas ainda não os sente como “próprios”. Entende que Deus lhe pede alguma coisa, ou muito mais. No entanto, não quer sentir-se totalmente pobre, renunciar radicalmente a um determinado apego, não ser dono da própria vida… Só um valor atraente pode sustentar a radicalidade da entrega. “Será  que serei capaz disso?” É a pergunta que faz a si mesmo, com muita apreensão.

Tentações do deserto

Então, surge a tentação de desistir, de voltar às cebolas do Egito, às seguranças que tinha antes. Com efeito, a fase subliminal é como a longa viagem que o povo eleito fez através do deserto; é como a lenta e interminável peregrinação da escravidão do Egito para a libertação da terra prometida. Caminhada que o povo fez, sem saber precisamente para onde ia, em meio às dificuldades e privações sem conta, com saudade do bem-estar que deixou. Mas, sobretudo, caminhada com um Deus que, em cada etapa da viagem, se revelava de forma nova e imprevisível, obrigando o povo de Israel a cancelar a imagem que antes tinha feito Dele. No entanto, sabemos que foi precisamente durante o Êxodo que o povo eleito “conheceu” seu Deus, seu braço forte, seu amor de predileção, sua misericórdia e sua santidade.

A conversão, como já dissemos, começará no dia em que aceitarmos que Deus seja diferente dos nossos esquemas, e se dará de fato, só quando permitirmos que esse Deus nos leve para onde Ele sabe e quer.

Fonte: Extraído de parte da obra, “Amarás o Senhor teu Deus” – CENCINE, Amedeo. Edições Paulinas.